Entrevista com Tainá Müller na Glamour de outubro

Como anda sua relação com seu corpo agora, neste exato momento? Hoje tenho um olhar muito mais generoso com o meu corpo do que com 20 anos, quando era modelo e 12 kg mais magra. Quando fotografava em Milão não me achava magra o suficiente, nunca estava satisfeita. Vejo fotos da época e percebo que tinha um corpo “perfeito”, totalmente dentro do “padrão” e estava infeliz. Agora ele não está neste padrão, mas me sinto mais confortável. E não se trata de um mérito meu, mas de um reflexo desse movimento de desconstrução de padrões e de nível de exigência. Sim, meu corpo está ótimo para uma mulher de 36 anos, com filho. Não, não vou ter mais o corpo de 20 anos porque eu não tenho mais 20.

Tem vontade de mudar algo em você? Entendi que não tenho que almejar um corpo que não é o meu. Já tive barriga sequinha, mas nunca tanque. Por que teria agora? Eu sou essa, é minha genética. O tempo vai passar, meu corpo vai ficar mais disforme, mas dá para manter a dignidade. Se você está bem com você, ninguém vai reparar nos detalhes.

Como passou a pensar na objetificação como algo ruim? Eu sempre me senti internamente muito livre, mas esbarrava com uma falta de liberdade na sociedade. Quando comecei mesmo a estudar, a me aprofundar no feminismo, percebi que fiquei muito tempo à mercê do julgamento desse olhar que não é o que eu sou de verdade. Eu sou mais que meu corpo. Se eu for o meu corpo, acabou. Porque o corpo acaba, é perecível. Eu não quero ser só isso e não sou só isso.

Aí veio o cinema, as cenas de nudez, e você logo se tornou a “nova musa do cinema nacional”. Como foi isso? Aquele filme [Cão Sem Dono], especialmente, era bom, de um diretor que admiro muito, me rendeu o prêmio de atriz... Foi realmente o meu início e sou muito grata por ter feito. Mas aí, como eu tinha tido esse histórico como modelo e teve essa cena de nudez, em todo roteiro que eu recebia tinha que tirar a roupa. Eu me incomodava, mas não entendia o porquê. Pensava que não estava me entregando totalmente à profissão. Hoje entendo que é porque uma coisa é você tirar a roupa e ser protagonista, uma personagem que pensa. Outra é para ser a namorada do homem, ele, sim, o personagem complexo, conturbado. Como personagem eu também tinha o direito de ter as minhas questões. Isso não acontecia e me levou a comprar os direitos da biografia de Hilda Hilst.

Para você, como para Hilda, a noção de sexualidade também foi construída de maneira livre? Sempre me senti livre, mas acho que eu não era tão livre quanto eu achava que era, essa que é a realidade. Sempre fui de namoros muito longos, casei pela primeira vez muito nova. De uma certa forma tinha ali, muito internamente, a ideia de que é preciso casar e ter um relacionamento estável.

Hoje isso mudou, apesar de você ter uma família?

Sim, porque hoje é uma escolha consciente. Sei que eu estou escolhendo estar nesse lugar e que poderia não estar. Adoro ter essa vida familiar, eu sou isso também e aí que está: a liberdade não é ser a loucona. Liberdade é você escolher ser o que quiser.

Que tais as transformações durante a gravidez? Meu corpo nunca mais foi o mesmo. A gravidez

é muito dissonante do estilo de vida que a gente leva. Tinha dias em que eu só queria ficar deitada. Às vezes me sentia enorme, às vezes me sentia linda e tirava uma foto. Agora vejo que estava linda o tempo inteiro. A gente distorce muito nossa imagem por causa da sensação que tem no momento.

E o puerpério? Foi tão intenso que nem lembro com detalhes. Tive muitos problemas para amamentar, chorei várias vezes de dor, achei que não daria conta. Mas descobri que sou forte. Que o feminino tem algo sagrado. Acredito que se existe uma revolução possível para salvar o mundo, ela vem através do feminino – o feminino das mulheres e dos homens.

Última atualização em Sex, 05 de Outubro de 2018 11:14  
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